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Laboratório Mainen muda-se para Portugal no projecto de investigação mais caro alguma vez desenvolvido no nosso país
 
É uma das primeiras conquistas do Instituto do Centro de Investigação da Fundação Champalimaud. O Laboratório Mainen, um centro de pesquisa nos Estados Unidos especializado em neurociências e na compreensão dos mecanismos de adaptação dos organismos, mudou-se para Portugal. Por enquanto a trabalhar num laboratório temporário do Instituto Gulbenkian da Ciência (IGC), em Oeiras, o reconhecido neurocientista Zachery Mainen falou à ""Nature"" do porquê de se mudar para um país ainda na cauda da União da Europeia no que toca a investimento em ciência. A reportagem da autoria de Allison Abbott, correspondente da "Nature" na Europa, divulga ao meio científico mundial aquele que será o projecto de investigação mais caro alguma vez desenvolvido em Portugal.

Há três anos, o investigador Zachery Mainen recusou propostas de centros de investigação estabelecidos e conceituados, como o Janelia Farm Research Center, em Virgina, e o Cold Spring Harbor Laboratory, em Nova Iorque para aceitar vir trabalhar um lugar do outro lado do Oceano, num centro de investigação que ainda nem abriu, nem tão pouco tem o seu edifico sede construído.

No entanto, escreve Allison Abbottt, em Julho do ano passado, tornou-se num dos primeiros cientistas a ser recrutado para o Centro de investigação da Fundação Champalimaud, em Lisboa, que deve começar a funcionar em pleno em 2010.

O projecto e programa do futuro centro de investigação foi concebido por Leonor Beleza, depois do testamento de António de Sommer Champalimaud, a ter designado em 2004, aquando da sua morte, presidente de uma fundação dedicada à biomedicina com um orçamento no valor de 500 mil milhões de euros, um quarto da herança daquele que foi um dos empresários mais ricos de Portugal.

Durante um pouco mais de um ano, explica a reportagem publicada hoje pela ""Nature"", Beleza iniciou conversações com membros da elite científica do país e visitou instituições de referência como o MIT, em Cambridge, o Cold Sprong Harbor Laboratory e português Instituto Gulbenkian da Ciência, que acabou por se tornar uma das alavancas do projecto, com a cedência do seu espaço para o inicio dos trabalhos dos investigadores recrutados e, na figura do seu director António Coutinho, com apoio ao nível do estabelecimento do programa de investigação em neurociências.

Centro vai empregar pelo menos 300 cientistas

"O Centro de Investigação da Fundação Champalimaud vai ter tudo o que o dinheiro pode comprar: um surpreendente edifício no valor de 120 milhões de dólares, desenhado por arquitectos reconhecidos, equipamento de ponta e pelo menos 300 cientistas". Localizado em Lisboa, no lugar onde Vasco da Gama e outros navegadores do século XV partiam para a descoberta de novos mundos, compara a jornalista, o novo complexo promete levar os investigadores do século XXI a navegar por novas águas.

O programa final para o centro de investigação inclui duas componentes, explicou Leonor Beleza à ""Nature"", um lado ligado às neurociências e outro ao cancro. Mas não foi uma decisão repentina. "Eu não conheci o Champalimaud enquanto pessoa, por isso tentei reconstruir na minha cabeça aquilo em que ele teria pensado", disse a presidente da fundação. Primeiro Leonor Beleza pensou que, sendo Champalimaud um empresário e tendo morrido aos 86 anos praticamente cego, seria interessante ter um projecto que fizesse a ponte entre a investigação e a prática clínica e vocacionado para a visão.

No entanto, em conversa com o Nobel do MIT Susumu Tonegawa, acabou por perceber que o caminho para onde tinha apontado no início talvez não fosse o melhor. "Ele explicou-me o quanto a nossa visão é controlada pelo cérebro e que ainda é preciso compreender a neurociência a um nível básico antes de se começar, de forma sistemática, a transpor os resultados para a clínica", lembrou Leonor Beleza à "Nature".

Projecto combina investigação básica e aplicação clínica

Esta e outras ajudas convenceram-na de que, pelo menos uma parte considerável da doação, devia apoiar investigação básica, sem nenhuma exigência em termos de aplicação clínica, ou, pelo menos, sem estar presa a isso.

António Coutinho, presidente do IGC, encorajou então Leonor Beleza a considerar a investigação em oncologia, uma área em que facilmente se passa para as aplicações clínicas e onde os cuidados em Portugal ainda não pobres dado os 20 mil casos anuais de doentes com cancro.

O resultado, escreve Allison Abbott, foi um plano ambicioso, "um projecto tão ousado quanto pode ser imaginado num país que durante algum tempo teve um dos investimentos mais baixos em ciência e investigação na União Europeia".

Leonor Beleza estipulou um prémio anual, no valor de 1 milhão de euros, para investigação sobre a cegueira e prevenção da doença, concebeu uma clínica oncológica onde se combina investigação e tratamento e desenvolveu um programa em neurociência básica, com destaque para a identificação de circuitos do sistema nervoso envolvidos no controlo do comportamento.

Segundo a "Nature", "a decisão foi uma desilusão para muitos cientistas em Portugal que estavam a torcer por uma melhor distribuição da riqueza".

Atrair os melhores do mundo

Consciente de que os bons cientistas só viriam para Portugal, para uma instituição por abrir e sem provas dadas, se tivessem melhores condições do que lá fora, Leonor Beleza pensou atractivos como, por exemplo, um fundo "pára-quedas", que permite aos investigadores recrutados guardar algum dinheiro alocado à investigação se decidirem sair do Instituto Champalimaud.

Até agora, Beleza recrutou três investigadores principais, mas o centro de investigação ainda não tem director. Segundo a "Nature", a presidente da fundação quer trazer para Portugal os melhores cientistas do mundo mas "seria bom se alguns fossem portugueses".

Trazer os melhores cientistas do mundo pode ser um desafio mas "fará uma enorme diferença na investigação em ciências da vida em Portugal", disse António Coutinho, à "Nature". E talvez eles venham, como mostra o exemplo de Zachery Mainen, que nunca pensou vir parar a Portugal mas que espera que o projecto coloque o país no mapa da investigação internacional.

A reacção ao centro é geralmente positiva, apesar de ainda ser cedo para dizer se ele vai conseguir competir com os institutos de investigação já estabelecidos e se a combinação entre cancro e neurociências vai ser produtiva, salienta Allison Abbott.

Segundo o Ministro da Ciência, Mariano Gago, a ciência sediada em Portugal tem vindo a crescer e a modernizar-se rapidamente e a despesa aumentou. No entanto, frisa a Nature, em 2005, Portugal gastou 0,8 por cento do seu produto interno bruto em investigação quando a média da EU estava nos 1,8 por cento.

"Alguns esperam que a injecção de dinheiro sem precedentes de Champalimaud possa acelerar os esforços para transformar a ciência no país", escreve a jornalista da "Nature". Por enquanto sem concretização física, o projecto de arquitectos premiados está disponível, à distância de um clique, na página da fundação.

Fonte: http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=25867&op=all
 
Inserido em 04-04-2008
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