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Cérebros à solta pelo País numa semana que lhes é dedicada
 
Como funcionam os cem mil milhões de neurónios do cérebro, que doenças pode haver, o que fazem as unidades de investigação em neurociências e laboratórios associados e porque é que esta área de estudo deve ser acarinhada pela sociedade e pelos decisores políticos e empresariais são algumas das mensagens que deverão chegar a todo o país até ao final da semana. A Semana do Cérebro, que decorre entre 9 e 16 de Março, arrancou ontem à tarde no Pavilhão do Conhecimento. "É nossa convicção que os cérebros vão andar à solta pelo país", disse João Malva, responsável pela organização da Sociedade Portuguesa de Neurociências (SPN).

Jogos ajudam a descodificar disciplinas que estudam o cérebro
A semana do cérebro é uma iniciativa de divulgação científica promovida a nível mundial pela Organização Internacional para Investigação do Cérebro (IBRO). A 4ª edição da iniciativa em Portugal, organizada em parceria pela SPN e pela Agência Ciência Viva, conta este ano com a colaboração da Sociedade Portuguesa de Neurologia e visa aproximar a investigação da população, transmitir cultura científica, despertar vocações e contaminar a sociedade com espírito científico.

Puzzles, jogos e conversas informais sobre o cérebro para os mais novos, a começar no ensino pré-primário, e exposições, debates sobre temáticas mais profundas, por exemplo, como são as doenças e como se podem tratar, e visitas a laboratórios com investigadores profissionais para alunos do ensino básico e secundário, prometem descodificar o conhecimento das diferentes disciplinas que estudam o cérebro.

"Queremos contaminar as crianças e, através delas, os seus familiares, para a importância do estudo do cérebro na sociedade. Através desta iniciativa cativamos também os jovens que não estavam tão alerta sobre o cérebro ou que, estando alerta, não sabiam o que esperar das unidades de investigação em Portugal. Com as actividades ficam entusiasmados e pensamos que isso poderá ter um peso determinante na escolha de cursos futuros", disse João Malva ao Ciência Hoje.

O programa, com várias actividades a decorrer em simultâneo, envolve espaços como o Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, os Centros de Ciência Viva de Proença-a-Nova, Coimbra e Aveiro, acções no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, no Clube Setubalense e na Casa Egas Moniz, em Estarreja, conferências na Universidade de Aveiro e até uma campanha de sensibilização no Centro Comercial Glícinias, também em Aveiro.

"A acção é educativa. As informações que transmitimos à sociedade são válidas por si, fazem parte da cultura científica. Mas a informação que se transmite ajuda as pessoas a tomarem decisões na sua vida de um modo mais informado. Sabendo quais são alguns factores de risco, como é que devem evitar o desenvolvimento de algumas patologias do cérebro quando elas são evitáveis por exemplo", explicou João Malva.


Debate interdisciplinar

Há um conjunto de qustões em que a discussão está em aberto: o que pode ter o sono a ver com as doenças do cérebro, quais os avanços nas terapêuticas para os AVC ou ao nível da micro-estimulação e das técnicas de imagens médicas associadas aos processos de diagnóstico, por que razão os doentes não podem ter medo da tecnologia e quais as consequências de melhores terapêuticos para além de aumentar a sua esperança de vida.

O debate sobre "O Impacto das doenças do Cérebro na Sociedade", conduzido ontem à tarde por um painel de investigadores do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC), de Coimbra, e do Instituto de Medicina Molecular (IMM), de Lisboa, concluiu que a investigação em neurociências não pode parar e que por cada avanço que se faz surgem novos problemas.

"Estamos perante doenças extremamente complexas e temos por isso de ser cuidadosos. No futuro penso que o mais valioso será estabelecer correlações entre os dados fornecidos pelas técnicas de imagem, pelos estudos genéticos e pelos bio-marcadores. Tem de haver uma correlação entre os vários tipos de estudos", defendeu Catarina Oliveira, especialista na doença de Alzheimer e presidente do CNC.

"O tremor que as pessoas associam à doença de Parkinson não é hoje uma incapacidade importante. Temos técnicas de estimulação que conseguem solucionar os problemas motores associados. Mas isto não significa que a doença esteja resolvida. Os problemas associados relacionados com o humor ou a demência são domínios que ainda não conseguimos tratar. As pessoas não morrem tão cedo mas é preciso resolver novos problemas", disse Cristina Sampaio, investigadora do IMM. "Não temos a cura para estas doenças mas a morbilidade está a mudar. Talvez ainda não tenha diminuído mas conseguimos dar hoje uma melhor qualidade de vida", salientou.

Segundo os investigadores é preciso atacar as doenças do cérebro em várias perspectivas, desde a sua origem ao diagnóstico precoce através de bio-marcadores, melhores terapêuticas e menos descriminação social. Esta evolução integral faz-se através de cooperação interdisciplinar mas também da colaboração dos doentes e da sociedade.

"Estamos a melhorar muito nos cuidados que podemos prestar mas continua a haver uma grande desconfiança em relação aos ensaios clínicos e aos novos fármacos", disse Isabel Pavão Martins, do IMM.

Um terço da população mundial sofre de doenças do cérebro

As doenças do cérebro afectam 33 por cento da população mundial, com 127 mil novos casos anuais, sejam elas a de Creutzfeldt-Jakob, o Kuru, a doença de Parkinson, Alzheimer, patologias degenerativas da retina, ou doenças de ansiedade ou de afectividade, como fobias ou a depressão aguda.

Na sessão de abertura da Semana do Cérebro, Ian Ragan, director exectuivo do European Brain Council (EBC), disse que as doenças cerebrais estão neste momento a ser negligenciadas pela sociedade e pelos decisores políticos. O EBC está sediado em Bruxelas e visa reunir todos os estudos e informação estatísticos em termos de casos clínicos, impacto social e custos associados às patologias de forma a intervir junto da Comissão Europeia e de outras instituições capazes de investir na investigação sobre o cérebro com o fim último de aumentar o conhecimento e a qualidade de vida dos doentes.

De acordo com o responsável, as doenças do cérebro custam 386 mil milhões de euros anuais e têm um financiamento ao nível da investigação na ordem dos 4,1 mil milhões de euros, suportados em 16 por cento pelos governos e 79 por cento pela indústria. Segundo Ian Ragan, não se percebe como estas doenças do cérebro - que em termos de custos e manifestação social se estima terem o dobro do impacto de uma doença como o cancro - tenham metade do investimento público e privado atribuído à investigação desta enfermidade.

Em Portugal, as patologias do cérebro mais frequentes são as doenças de ansiedade, com um milhão de casos, seguidas das dores de cabeça e das doenças de afectividade como as depressões. Confrontado com a falta de investimento criticada por Ian Ragan, Mariano Gago, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior disse que a agenda de investigação está atenta às neurociências e que não se pode desvalorizar a investigação de doenças como o cancro em função das necessidades de conhecimento das doenças do cérebro.

Lobby positivo

João Malva assinala que a realidade mostra uma falta de união das instituições científicas e das associações de doentes ligadas às doenças cerebrais. De acordo com o responsável, a Semana do Cérebro poderá alertar as várias partes para a necessidade de juntar esforços.

"Há outras áreas da medicina que fazem um 'lobby' positivo – os profissionais dessas áreas trabalham bem, organizam-se e sabem transmitir à sociedade e aos decisores a relevância do trabalho que desenvolvem. Os profissionais do cérebro e as associações de doentes de patologias do cérebro não estão organizados da mesma maneira. Há um desfasamento entre o impacto real das doenças do cérebro na sociedade e a eficiência com que os cientistas desta área o transmitem", afirmou João Malva. "Quando falamos de cancro não falamos dos diversos cancros, falamos de cancro. Quando falamos de cérebro falamos de psiquiatria, neurologia, não há uma unidade", acrescentou.

De acordo com o presidente da SPN, as doenças do cérebro ainda estão altamente estigmatizadas. "Durante séculos foram vistas como um problema de pessoas frágeis mentalmente, sem estrutura, e se recuarmos a tempos medievais, de pessoas possuídas pelo demónio. Temos de passar para uma sociedade moderna que olha para a doença do cérebro como olha para qualquer doença de outro órgão ou sistema do corpo".

Fonte: http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=25429&op=all
 
Inserido em 11-03-2008
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